terça-feira, 7 de outubro de 2014

A bolha da intolerância

Durante esse imenso tempo que não escrevo aqui comecei a entender um pouco melhor o motivo de expor suas ideias ser algo tão desgastante, talvez até sendo um dos motivos desse afastamento. Eu me lembro de uma época onde conversar e debater assuntos às vezes até gerava umas discussões bastante tensas, mas dificilmente culminando em falta de respeito e ofensas. Por um tempo meio que questionei se isso não seria fruto de uma idade mais nova, um entendimento "menor" das coisas que propiciavam um desgaste menor em certos assuntos. Mas, ora, desde quando essa falta de capacidade de se comunicar tem alguma relação coma  maturidade que, teoricamente, você ganha ao longo dos anos? Ironicamente, quando eu era criança costumava achar que os adultos sempre conseguiam conversar e resolver as coisas, que brigar era coisa de criança. Acho que muita gente não sabe ficar adulta e surta, simplesmente.
Já repararam como atualmente todo mundo sabe a verdade? Ninguém mais tem opinião, simplesmente, mas uma ultra-opinião. As pessoas hoje em dia têm fatos, têm a verdade! A ironia disso é que é tanta verdade oposta e contraditória que me espanta ver que tantos intelectos supremos não percebam que há uma grande mentira em cada verdade extrema. Vejo uma predominância da arrogância nos argumentos atuais, com direito a ofensas logo no início de uma manifestação mental da pessoa que me remete a uma ignorância tão grande que me pergunto o que essas pessoas pretendem com isso. Ainda que sua verdade seja absoluta e extrema, será que é difícil perceber que sua arrogância é um impedimento à transmissão de conhecimento? Não é dizendo "e ainda tem imbecil que vota na Dilma" ou "tu é muito esperto de criticar corrupção e votar no Aécio" que se estabelece algum tipo de comunicação saudável. Ou que seja sobre Feliciano, Bolsonaro, Levy, Sarney. Sim, esses bastante extremos, com opiniões e ações extremas que geram, em muita gente, vontade de explodir o mundo. Mas aí tu explode e o que te sobra? 

É interessante ver gente que usa discursos de ódio contra discursos de ódio. Na minha opinião, isso não leva a absolutamente nada. E não estou falando que os discursos de ódio não devam ser abolidos: ao contrário, estou afirmando isso mais que muita gente que profere palavras de ódio contra o ódio. Como eu disse ali em cima, ofender as pessoas não permite o estabelecimento de uma troca saudável de informações. Por mais absurdo que seja, se você que odiou o discurso do Levy sobre gays porque ele acha gay nojento ou o do Bolsonaro dizendo que falta de porrada é um dos fatores pra gay ser gay e isso ofende e agride seus ideais de maneira desconstrutiva, tente se colocar na situação onde você se identifica com esses discursos. Você refletiria sobre essas ideias se alguém falasse que pensar assim é coisa de imbecil, maluco, doente mental? No máximo, há uma troca de ofensas nessas duas situações e isso não gera mudança alguma, ou gera uma mudança muito mais lenta que um diálogo. 
Acho estranho como as mesmas pessoas que admitem termos um nível de educação no país em patamares criminosos não entenderem que isso é, em boa parte, fruto de falta de educação. E qual bom educador educa à base de porrada moral? Se isso fizesse efeito, nossa sociedade seria um tanto diferente. Entendam que eu não proponho aceitar a intolerância alheia, mas não alimentar com mais intolerância. As pessoas estão se espantando com o quão arcaicos e medievais estamos sendo ultimamente, com muitos grupos conservadores ganhando força e voz. Na realidade, vejo tantos grupos "modernos" quanto "arcaicos" ganhando voz e, praticamente, ninguém mediando essa guerra crescente, com um abismo cada vez maior se formando e a violência se ampliando. Parece que vivemos a era do "ou está comigo ou contra mim". Em discussões com exaltados(as) feministas e veganos quase fui taxado de estuprador e de escravizador de animais, algo que definitivamente não reflete minha vida. Por outro lado, sou chamado de "viado" ou "hippie maconheiro" quando defendo direitos homossexuais, das mulheres e legalização da maconha, com grupos defensores de "família" e gente que acha que dá pra fechar a fronteira inteira do país. Por que diabos é tão difícil ter uma conversa amigável atualmente, com plena troca de informações? Por que diabos os egos estão tão feridos que as pessoas têm mais necessidade de provar que estão certas a ter um diálogo? Parece que as pessoas estão se colocando nas beiras do mundo e esquecendo que existe todo um espaço no meio pra ocupar, onde os extremos se comunicam. E essa distância está cada vez se aprofundando mais. Quando essa bolha vai estourar?

1 comentários:

Aline Figueiredo disse...

Muito bom! Adorei!

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